Wednesday, February 14, 2018

It`s an outlier!

Em Portugal, muitos filhos são primos.




Em Portugal, muitos filhos são primos. E depois há cunhados e genros e noras e primos.

Em Portugal, tende a distribuir-se a riqueza e a pobreza existente, não em torno e em função de acordos, de contratos ou de princípios de exemplaridade, mas de contextos, de relações, de posições, de afinidades instituídas pela norma, pela tradição, pela obrigação formal.

Trata-se de uma economia de relações com um toque de minifúndio, que incentiva a reprodução do localismo, o enviesamento das decisões em benefício da ordem existente, uma disposição que constitui uma dificuldade à valorização da abertura, da diferença.

A diferença irrompe, desde logo, como ameaça à integridade do contexto, das relações existentes.

As práticas de gestão são medíocres, a sua eficiência é duvidosa, diz-se. Em parte, esta circunstância poderá decorrer, pode propôr-se, do seu foco tomar como objecto primeiro de atenção um contexto de relações e de posições, a necessidade de articular (também) a sua subsistência.

O fulcro organizador das práticas de gestão não é, em termos substantivos, o contrato, isto é, um objectivo reconhecido como hipótese de valor partilhado, uma distinção baseada em recompensas e em incentivos diferenciais, mas sim uma gestalt de relações pré-existente, a necessidade de assegurar a sua preservação, o reforço de relações de civilidade e proximidade existentes, a selecção que tem lugar no contexto de uma confraria de apaniguados.

Este é um quadro que dificulta a afirmação de uma capacidade de julgamento independente, a abertura à mudança, à diferença, a relações de cooperação. Os cálculos de utilidade que se registam são outros: mais terras indivisas, menos encargos de dote, um reforço de banhos entre os dedos dos pés.

O que depois sucede é uma espuma: deixa de haver assunto, deixa de haver compromisso, deixa de haver sangue. Há menos esperança, menos filhos. Emigra-se.


Monday, February 12, 2018

Palavras de Cotrim.

Trabalhos manuais.



Ontem recebi um elogio: 
tinha as unhas bem cortadas.

Agradeci.
Referi, a esse propósito, a importância de ter estudado trabalhos manuais na escola.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXX).



(no outro dia, conheceste o bomba.
perguntaste se era um amigo do pai.
disse-te que sim, que um dia, quando era novo,
o bomba me deu no futebol com o ombro,
e eu ganhei pontos na cabeça.

falei-te depois um pouco do bomba.

o bomba, quando era novo, queria ser o van damme.
tentou um dia ir para a tropa, mas a roupa não lhe servia.
tentou um dia ir correr os cem metros, mas era-lhe difícil parar a meio.
tentou um dia ir lançar o peso, mas ficava muito caro em sopa.

o bomba, hoje, salva vidas. já salvou muitas vidas.
o bomba nunca entra no mar - não precisa.

olha apenas o mar de frente. e grita).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXIX).




(de novo, a vida institucional, o seu foco no compartimento, na ética da convenção e da regra, na distância.

os pais não devem interferir, não podem tocar. os meninos e as meninas lá seguiam, alguns a praticar o queixo caído, a fronte cabisbaixa. há regras definidas pelas instituições cujo intuito parece desenhar-se em sentido estrito, em benefício próprio, uma configuração que é dita como sendo própria, necessária, natural.

para os meninos e para as meninas, o que existe, existe a partir do outro - do que o outro faz, do que o outro lhes diz, lhes explica, acerca do que acontece, acerca do que lhes acontece. haverá um tempo para a oposição, a afirmação de uma forma de autonomia, de individualidade. a sobrevalorização da ética da convenção e da regra institucional deixa, entretanto, um resto, uma espuma.

um dia, vi um powerpoint que enfatizava os méritos da participação parental.
a prática tem enfatizado a redoma, a circunscrição das possibilidades de que esta participação se traduza numa interferência: 

- gostaste do desfile de carnaval?
- não, o tu estava triste. a mãe e o pai foram ver... mas ficaram na rua).

Tuesday, February 06, 2018

Palavras de Cotrim.

Idiossincrasia.



Uma idiossincrasia é uma forma de idiotia, de desvio, alheia, como outras, ao sentido de conformidade que alcança os homens que se colocam em consenso.

Uma idiossincrasia resulta de uma mistura particular de fluidos corporais, de uma condição de hipersensibilidade daqui decorrente. Provoca, no contexto das relações quotidianas, resistência, lentidão, estranheza.

Perturba.

Monday, February 05, 2018

It`s an outlier!

Receber um convite: Da influência como poder amável, numa empresa. 



Importa "ganhar mundo", "sair da zona de conforto", ouve-se hoje, dentro e fora dos locais de trabalho, de lazer, de educação e formação. 

Novos interesses de mobilidade associam-se à norma do achievement, da optimização permanente do desempenho, do rendimento, da necessidade de auto-realização. Nas empresas, um discurso amável apresenta uma condição de mobilidade (interna, funcional, internacional) como lugar de estímulo e de diferenciação.

Um poder amável estimula, seduz, não classifica, ameaça ou prescreve. Nas empresas, uma nova condição de mobilidade é apresentada como condição de prosperidade, uma oportunidade e uma escolha desejável, um estatuto de maioridade tendente à optimização dos recursos detidos. O acesso a esta condição é constrito, objecto de selecção aparente. Não se trata de uma condição que se encontra igualmente disponível para todos. Existem convites. 

Um convite incita a auto-exploração, a procura de optimização permanente protagonizada por cada indivíduo. A dúvida, o potencial de conflito rangente, de descontinuidade decorrente da existência de um convite é dirigido pelo indivíduo para si mesmo.

As necessidades da empresa, de um projecto ou da organização são apropriadas, neste contexto, como necessidades próprias, do próprio indivíduo. Deste modo, um convite é tipicamente figurado e representado como uma oferta. Uma oportunidade de optimização e de rendimento. Um convite não confronta, por via de regra, um indivíduo. Concede-lhe condições, facilidades. Na resposta a um convite, o enquadramento da escolha, do sentido de adequação da escolha opera não por coacção ou por exclusão, mas sim pelo forjar de um sentido de dependência, de cumplicidade íntima, ontológica. Quando um convite é apresentado, engendra-se naquele que o recebe, como subtexto, um sentido de dívida, que constitui, em si mesmo, um modo de condicionamento e de orientação da escolha.

A coerção não é externa, é própria, a adesão não decorre da inibição, é subjectiva. São os próprios processos psicológicos que são mobilizados, sem resistência aparente, como força e recurso de produção pelo discurso organizacional. Variáveis de enquadramento situacional são objecto de subjectivação: o fantasma da exclusão, do desemprego, de "ser encostado" ou esquecido, por exemplo.

Motivos psicológicos fundamentais são mobilizados, em termos discursivos: um sentido de autonomia, uma possibilidade de controlo, de auto-realização. A possibilidade de controlo de uma situação. De uma situação pessoal. O sentido e a economia das relações de poder e de controlo (da dúvida, da culpa) são aparentemente deslocados para o indivíduo. O indivíduo é incitado a relacionar-se, a concorrer consigo próprio na remissão da culpa, da regulação dos efeitos de uma tomada de decisão (aceitar, rejeitar um convite, uma oportunidade, uma "missão").

Importa "ganhar mundo", "sair da zona de conforto": o apelo que é assim concretizado não assume uma feição disciplinar, operando ao invés num plano subjectivo, assente numa permissividade amável, não na censura, na inibição, na proibição.

Aceitar um convite ou não: o lugar da luta, do confronto, da regulação da dúvida é hoje, numa empresa, interno. O expediente de regulação da acção assume uma base individual. O condicionamento social tem lugar, deste modo, em lugares sem controlo aparente, onde a moderação, os operadores de moderação são invisíveis, inaudíveis. O condicionamento, a existência de condicionamento é, desde modo, difícil de objectivar. Auscultar, regular a sindicância dos motivos é difícil. Em sentido próximo, a dúvida é difícil de enunciar, de tornar visível. 

Neste contexto, há quem sugira que os indivíduos devem ser protegidos daquilo que pretendem (protect me from what I want), porquanto são remotas as condições que influenciam as suas escolhas. 

Palavras de Cotrim.

Barriga.



É possível constatar que não há muitos homens com mais de setenta anos que tenham barriga. Alguma coisa deverá acontecer, entretanto, é possível supôr. Ou aos homens, ou às suas barrigas.

Palavras de Cotrim.

Frenesim.



Quando quero tentar parar na cabeça o pensamento,
vou à primark ou à internet.

A sensação de frenesim estéril ajuda - quase sempre.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXVIII).



(em muitos dias, de manhã cedo, pode acontecer uma coisa imprevista, diferente:

- o tu não quer ir ao colo. o tu é já crescida.
- o tu não gosta de ir à escola. está lá muita gente.
- o tu não gosta que o pai vá correr. o tu fica sozinha.
- pai, hoje é para ir de férias?
- olha um portão... ... um portão é para entrar.
- o tu quer tocar música, mas o tu não tem instrumento.
- hoje está frio... está muito outono.
- o pai vai para o comboio. o trabalho do pai está longe).


Friday, January 26, 2018

It`s an outlier!

O investautor.



O afã do empreendimento e da nobreza do empreendedorismo tem conhecido, ao longo do tempo, múltiplas declinações. Um género particular de empreendedor distingue-se, por vezes, nos ermos escondidos das penínsulas: o investautor.

O investautor é um autor que investe.
O investautor investe porque é autor.
O investautor é um autor, porque essa condição lhe permite investir.
O investautor é um autor, neste sentido, de coisas que depois lhe asseguram um rendimento. De cantigas, por exemplo.

Enquanto autor de cantigas, o investautor tem o verbo treinado para deixar uma impressão de familiaridade. As suas cantigas suscitam, edulcorantes, o que mais convém: um ambiente de estímulo e de suspiro anónimo, sorrisos, contratos, contactos, anuência.

O investautor, aplanado de montantes, canta nas suas cantigas a penúria, a elevação da tristeza dada à solidão. Investe depois em hotéis, em restaurantes, em galas de beneficiência. A ele, as cantigas, as galas, interessam sobretudo por causa dos favores, dos afagos de velo que asseguram.

Ao investautor não faltam as oportunidades de comércio, se para tanto houver menu propício para cotejar simpatias. Ao investautor não faltam as palavras ossudas, os bons olhos que propinam serviços, duas a três vezes ao ano, nas festas do município. 

Ao investautor interessa, sobretudo, uma aparência de sentimento sério e comedido.
Ao investautor interessa, sobretudo, fazer valer e fazer durar a inércia do prestígio.
Ao investautor interessa, sobretudo, conhecer quem assina o formulário nos fundos da delegacia.

As cantigas do investautor são invariavelmente tristes, porque as cantigas tristes são respeitáveis, duram mais tempo, passam melhor nos intervalos das novelas. As cantigas são, afinal, um pretexto de feição respeitosa, bom para o investautor se meter em tudo o que lhe possa assegurar progresso. Isto é, dinheiro.

It`s an outlier!

O que é afinal a vida?



No que mais se ouve nos sítios, a vida parece ser uma espécie de porrada que dignifica.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXVII).



(há ocasiões onde pareces empregar todo o vocabulário disponível para levar um teu intuito avante:
- vamos ao parque. o parque está limpinho, é perto, é só um bocadinho, o tu vai ficar contente.
- o tu já não chora. o tu já é crescida.
- a zezé não vai embora. o tu tem um pijama que tem uma barba).